Nesta semana, a tripulação da missão Artemis 2 foi lançada ao espaço rumo à Lua, justamente no dia 1º de abril de 2026 (o Dia da Mentira), o que não deixa de ser irônico, considerando que ainda hoje, mais de 57 anos após a missão Apollo 11 (1969), há conspiracionistas que “juram de pé junto” que a ida do ser humano à Lua foi uma farsa. Caso ainda persistam dúvidas por parte do leitor incauto, apresento a seguir, em um único parágrafo, uma síntese das principais evidências que refutam essa narrativa.
Na volta da
missão Apollo 11 em 1969 trouxeram 382 kg de rochas lunares analisados
mundialmente, que possuem composições químicas impossíveis de replicar na
Terra, e os retrorrefletores de laser instalados na superfície, que ainda hoje
permitem medir a distância Terra-Lua com precisão milimétrica. Além
disso, fotografias de alta resolução capturadas recentemente por sondas como a
Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) mostram as bases dos módulos e as trilhas de
pegadas preservadas no solo lunar. Curiosamente, todo esse feito foi gerido
pelo Apollo Guidance Computer (AGC), cujo processador operava a apenas 2,048
MHz, uma potência milhares de vezes inferior à de um smartphone moderno ou até
mesmo de uma calculadora simples. Tudo isso foi fundamental por sua arquitetura
robusta e pioneira no uso de circuitos integrados, provando que o sucesso da
missão dependeu mais da engenhosidade da mente humana do que de força
bruta computacional. Ou seja, indivíduos de nossa espécie Homo Sapiens. rompendo limites nunca antes evidenciados
na história da era antropocênica (pesquise sobre essa expressão, ela é importante para o tom do texto).
Brasileiros
costumam levar a fama pelo famoso “complexo de vira-latas”, cunhada pelo
célebre escritor e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues na década de 1950.
Originalmente, ele a utilizou para descrever o trauma psicológico e a falta de
autoconfiança dos brasileiros após a derrota na final da Copa do Mundo de 1950,
mas o conceito se expandiu para a sociologia e o cotidiano. Observo que um
fenômeno de descrença semelhante ao "complexo de vira-lata" ocorre
frequentemente com as conquistas da astronomia e da exploração espacial. Muitas
vezes, subestima-se a capacidade humana em prol de uma visão que nos coloca
como eternos amadores, como se feitos de tamanha magnitude fossem fruto de mero
improviso ou tivessem menos relevância do que os de outrem. Essa desvalorização
chega ao extremo de atribuir realizações históricas a inteligências
alienígenas, revelando uma profunda dificuldade em aceitar que a mente humana,
por meio do rigor científico e da persistência, é plenamente capaz de
arquitetar tais façanhas.
Esse
comportamento assemelha-se ao malinchismo, um conceito mexicano que
descreve a preferência sistemática pelo estrangeiro em detrimento do que é
próprio de sua cultura ou espécie. O termo deriva de Malinche, figura histórica
que auxiliou os conquistadores espanhóis, e hoje serve para designar o preconceito
de quem desmerece as capacidades nacionais, ou em uma escala global, as
capacidades da nossa própria humanidade.
Neste ensaio, tento romper com essa visão limitada. Analisando os novos recordes estabelecidos pela missão Artemis 2, que marca o retorno audacioso da humanidade à órbita lunar e nos coloca novamente diante das boas e velhas questões de Carl Sagan (Pálido ponto Azul). Vou dar uma pequena pincelada também na questão da nova configuração da corrida espacial, agora protagonizada pela disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Contudo, para além da competição geopolítica, meu foco será ressaltar a grandeza humana e nossa inexaurível vocação para desbravar o universo, provando que o engenho e a curiosidade são nossas ferramentas mais potentes na exploração do cosmos, mas que não são empreendimentos neutros e isento de decisões políticos e ideológicas. Este último ponto foi inspirado no filminho que vi ontem com minha esposa: "Devoradores de Estrelas" (2026) - título original: Project Hail Mary - cujo autor é Andy Weir, que já é famoso por sua capacidade de combinar ciência precisa e detalhada com narrativas envolventes e bem-humoradas.
Começando pela tripulação da histórica missão Artemis 2, que personifica a excelência e a diversidade da exploração moderna: o comandante Reid Wiseman, pioneiro em humanizar a vida no vácuo através de vídeos virais das auroras boreais, lidera o grupo ao lado do piloto Victor Glover, experiente oficial da Marinha que se tornou o primeiro astronauta negro a realizar uma missão de longa duração na ISS. Somam-se a eles os especialistas de missão Christina Koch, recordista mundial de permanência feminina no espaço com 328 dias contínuos em órbita, e o canadense Jeremy Hansen, um experiente piloto de caça e especialista em sobrevivência em cavernas que será o primeiro não americano a deixar a órbita terrestre baixa. Juntos, esses quatro exploradores não apenas operam tecnologia de ponta, mas quebram barreiras sociais e físicas, provando que a capacidade de desbravar o cosmos é um patrimônio plural de toda a humanidade.
Falando mais especificamente
sobre os grandes feitos da missão, eles podem ser resumidos em dois.
Primeiramente, a missão Artemis 2 estabelece um marco histórico ao superar o
recorde de distância da Terra para uma espaçonave tripulada, atingindo a marca
aproximada de 406.788 quilômetros ao navegar pelo lado oculto da Lua.
Este feito supera a antiga marca da missão Apollo 13, que em 1970 alcançou
400.171 quilômetros devido a uma manobra de emergência, consolidando a cápsula
Orion como o veículo que transportou seres humanos ao ponto mais remoto do
cosmos já registrado na história da exploração espacial.
O segundo, diz
respeito ao avanço tecnológico e de trajetória. A missão destaca-se pela
execução inédita de uma trajetória de retorno livre, utilizando a própria
gravidade lunar como um "estilingue" natural para guiar a nave de
volta à Terra com consumo mínimo de combustível, questão que foi muito
problemática tanto nas missões Apollo 11, quanto na missão Apollo 13, que ficou
conhecida como "fracasso bem-sucedido" da NASA (veja o filme Apollo
13: Do Desastre ao Triunfo, dirigido por Ron Howard e estrelado por Tom
Hanks), bem bom!
Conforme
prometido, cabe agora analisarmos as nuances geopolíticas que sustentam esse
novo capítulo da astronáutica. Afinal, o que motiva os Estados Unidos, após 57
anos, a enviar uma tripulação para um sobrevoo lunar em vez de um pouso
imediato? Estaríamos diante de um mero exercício de saudosismo ou de uma etapa
calculada em uma nova e complexa arquitetura de poder e exploração sustentável?
O cenário atual, minhas caras leitoras e leitores, revela que não estamos diante de um simples "saudosismo", mas de uma Nova Corrida Espacial com objetivos muito mais ambiciosos e complexos do que os da década de 1960. Enquanto a missão Apollo tinha um caráter de demonstração de superioridade ideológica e tecnológica ("chegar primeiro"), o programa Artemis e as pretensões da China visam a ocupação sustentável e a exploração de recursos.
A historinha é
assim. A hegemonia dos Estados Unidos no espaço, estabelecida após o fim da
União Soviética, está sendo desafiada pela ascensão meteórica da China
atualmente. Para os EUA, o sobrevoo da Artemis 2 é um passo tático fundamental:
antes de pousar e estabelecer uma base, é preciso validar os novos sistemas de
suporte à vida e propulsão (como o Módulo de Serviço Europeu) em ambiente real
de espaço profundo. Trata-se de construir uma infraestrutura segura para que o
próximo pouso não seja apenas uma visita, mas o início de uma presença
permanente.
Por outro lado, há de analisar com muito cuidado as pretensões da China e todo funcionamento da Estação ILRS. A China não esconde suas ambições de se tornar a principal potência espacial até 2045. O país já obteve feitos inéditos, como o pouso no lado oculto da Lua e o retorno de amostras com a sonda Chang'e. O plano chinês é enviar taikonautas à superfície lunar antes de 2030 e, em parceria com a Rússia e outros países, construir a Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS). Para Pequim, o sucesso no espaço é um pilar de legitimidade interna e prestígio global, servindo como prova de sua paridade tecnológica com o Ocidente.
Pensando na
Lua como um imenso recurso natural, como já de costume do pensamento neoliberal,
o grande "tabuleiro" dessa disputa é o Polo Sul Lunar. Acredita-se
que as crateras eternamente sombreadas dessa região contenham depósitos de gelo
de água. Esse recurso é o "petróleo do espaço": pode ser convertido
em oxigênio para respiração e hidrogênio para combustível de foguetes,
transformando a Lua em um posto de abastecimento para missões a Marte.
Resumindo, a
Artemis 2 é o primeiro movimento de uma arquitetura que inclui a construção da
Gateway (uma estação na órbita lunar) e a consolidação dos Acordos de Artemis,
um tratado internacional liderado pelos EUA para estabelecer regras de
exploração. A China, por sua vez, busca criar sua própria rede de alianças
espaciais. O que vemos hoje não é uma repetição do passado, mas uma disputa por
soberania, extração de recursos e a definição de quem ditará as leis da nova
economia cislunar. Ou seja, estamos testemunhando a transição da Lua de um
destino contemplativo para um território estratégico de operação humana.
Nas últimas 500 palavras que me
resta queria refletir sobre o livro/filme de Andy Weir e nossa posição como espécie
inteligente no universo. Em Devoradores de Estrelas, o professor Ryland Grace
desperta sozinho numa nave a anos-luz da Terra, sem memória e com a missão de
impedir que um micróbio devorador de sóis transforme o planeta em uma bola de
gelo. Mesmo desesperado, Grace descobre que não está só e passa a comunicar com
um alienígena de uma espécie completamente incompreensível, ele não recorre à
violência ou ao medo, mas à matemática, física, à química, à paciência e à pura
curiosidade intelectual, construindo uma ponte de amizade interestelar baseada
em lógica, troca de conhecimento e cooperação, mostrando que a inteligência
humana: criativa, resiliente e generosa; é capaz de transformar o caos em
solução, o isolamento em parceria e o fim do mundo em um novo começo.
Quando
ressaltei no presente texto que a missão Artemis 2 estabelece um marco
histórico ao superar o recorde de distância da Terra para uma espaçonave
tripulada, atingindo a marca aproximada de 406.788 quilômetros ao
navegar pelo lado oculto da Lua tenho mente outros records de outas espécies
que partiulham conosco do mundo em que vivemos. Veja a andorinha-do-Ártico, um passarinho que realiza a migração mais longa do reino animal viajando distâncias
que chega a 90000 quilômetros por ano. Ao longo da sua vida, que pode durar 30
anos, a distancia percorrida por uma única andorinha equivale a três viagens de
ida e volta a Lua. Essa espécie vive em estado de verão eterno, vendo mais luz
do dia do que qualquer outra criatura do planeta. Tendo isso em vista. Contra
quem estamos competindo? Quais são os nossos limites? Os limites da capacidade
intelectual humana?
O mito de
Órion, o gigante caçador, é uma das histórias mais emblemáticas que envolvem
Ártemis na mitologia Greco-Romana. Em uma versão, os dois se tornam amigos e
caçam juntos, o que desperta os ciúmes de Apolo, irmão gêmeo da deusa.
Sentindo-se ameaçado, Apolo desafia Ártemis a provar sua habilidade com o arco
atirando em um ponto escuro ao longe no mar. Competitiva e confiante, Ártemis
aceita o desafio e acerta o alvo perfeitamente. A tragédia se revela quando o
"ponto" era a cabeça de Órion, que ela havia matado sem saber.
Assim como
Ártemis, a humanidade possui capacidades tecnológicas incríveis (foguetes
precisos, cálculos orbitais, robótica). Mas o mito de Órion adverte: a
excelência técnica sem vigilância ética e sem questionamento dos
"alvos" que nos são impostos pode levar à destruição do que mais
valorizamos. A missão Artemis 2 não é apenas um teste de engenharia; é um
lembrete de que, no espaço, como no mito, cada "tiro" deve ser
precedido pela pergunta: o que estamos realmente acertando?

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