Pular para o conteúdo principal

Por que Ensinar Física Moderna e Comtemporânea na escola em 2025?

 

Fonte: feito à mão

    No início do século XX os entusiastas pelos conhecimentos da natureza buscavam responder a perguntas que, para o leigo da época acostumado com a Mecânica de Newton, soariam como:
Se tudo que é quente brilha, por que a luz que sai de um forno quente (radiação) não fica infinitamente azul ou brilhante, como as nossas leis atuais parecem prever? 
Se a luz é uma onda que se propaga em algo invisível chamado 'éter', por que nossos instrumentos não conseguem detectar a Terra se movendo através desse éter? A velocidade da luz deveria mudar, mas ela teima em ser sempre a mesma! 
Se a luz é uma onda, por que quando jogamos luz em um metal, ela se comporta como se fosse feita de 'pacotinhos' de energia (fótons), e só a cor certa (frequência) consegue arrancar elétrons, e não apenas o brilho total?" 
Por que os átomos (que deveriam ser como pequenos sistemas solares) não colapsam imediatamente, já que os elétrons, ao girarem, deveriam perder energia e cair no núcleo?.
    A busca por respostas para questões nesse sentido culminou em alguns conhecimentos importantes para ualidade. A Relatividade Especial, por exemplo, explica o comportamento de objetos em velocidades próximas à luz, como os ajustes no GPS. A Mecânica Quântica, que desvenda as leis estranhas do mundo microscópico, onde partículas podem estar em vários lugares ao mesmo tempo. A Física Atômica e Molecular, que estudam a estrutura dos átomos e como eles se ligam, formando toda a matéria ao nosso redor e explicando a química e o funcionamento dos lasers. A Física do Estado Sólido investiga como bilhões de átomos se organizam para criar as propriedades dos materiais, como os semicondutores que formam os chips de computador. Finalmente, a Física Nuclear e de Partículas explora o núcleo atômico e os componentes fundamentais da matéria, explicando desde a energia nuclear até os processos que alimentam o Sol e a própria composição do universo.
    Sabemos que, dentro da perspectiva epistemológica atual, a construção desses conhecimentos científicos supracitados avança por rupturas e mudanças de paradigma, não de forma cumulativa e linear, conforme defendido por Thomas Kuhn. Com isso em mente, não há motivos para considerarmos o desenvolvimento dos conhecimentos de Física Moderna separados dos conhecimentos de Física Contemporânea, ou achar que o contemporâneo é mais avançado que o moderno. Por isso, autores como Fernanda Ostermann e Marco Antônio Moreira costumam tratar esses conhecimentos como FMC (Física Moderna e Contemporânea), um conhecimento só, que influencia outras pesquisas em diversas áreas: Computação Quântica; Matéria Condensada (especialmente materiais 2D como o grafeno); Física de Astropartículas (caça à Matéria Escura, neutrinos); Tecnologias Quânticas (Criptografia e Sensores); Nanociência e Nanotecnologia. 
    No entanto, para fins didáticos, muitos autores defendem que a Física Moderna compreende o período que se inicia majoritariamente em 1900, com a hipótese da quantização de energia de Max Planck, estendendo-se até a primeira metade do século XX para incluir as duas grandes revoluções conceituais: a formulação da Teoria da Relatividade Especial por Albert Einstein (1905), que redefiniu o espaço-tempo e a massa em altas velocidades, e o desenvolvimento fundamental da Mecânica Quântica (por nomes como Bohr, Schrödinger e Heisenberg), que descreveu o comportamento da matéria e da energia no nível atômico. 
    Já a Física Contemporânea geralmente é considerada o período posterior, iniciado por volta das décadas de 1940 a 1960), dedicando-se à aplicação desses fundamentos e às áreas de pesquisa de fronteira, como a Física de Partículas (Modelo Padrão), a Cosmologia Avançada e a Física da Matéria Condensada. A aceitação dessa divisão é frequentemente vista nos tradicionais livros universitários de Física, tais como: "Fundamentos de Física" de Halliday, Resnick e Walker e outros títulos amplamente utilizados como o de Tipler e Serway e Jewett, (que cobrem os fundamentos da Moderna). Além disso, há trabalhos de pesquisadores brasileiros em Ensino de Física, como Eduardo Adolfo Terrazzan e André Ary Leonel, que diferenciam os conceitos fundadores (Moderna) das pesquisas e tecnologias mais atuais (Contemporânea).

    Ao incorporar tópicos de Física Moderna e Contemporânea (FMC) no Ensino de Física da educação básica, é importante reconhecer que essa iniciativa vai muito além de uma simples atualização do currículo. Esta ação representa uma oportunidade de promover uma aprendizagem significativa (Ausubel, 2003; Moreira, 2011), pois conecta o estudante com os fenômenos científicos e tecnológicos que permeiam sua vida cotidiana e sua cultura digital (Testa, Lopes, Vidmar, 2023). Conforme apontam Goulart e Leonel (2022), a inserção da FMC no Ensino Médio permite ao aluno compreender a física como uma construção humana em constante transformação, despertando curiosidade e senso crítico diante das explicações científicas do mundo.
       Sob a ótica da Teoria da Aprendizagem Significativa (TAS), o ensino de FMC deve buscar o diálogo entre os conceitos prévios dos estudantes (subsunçores) e as novas ideias científicas que surgiram com a Relatividade, a Mecânica Quântica e a Física das Partículas. Quando esse processo ocorre de modo contextualizado, ocorrendo por meio de situações-problema, experimentação, simulações e discussões conceituais; o novo conhecimento se ancora cognitivamente na estrutura prévia do aprendiz, promovendo reconciliação integrativa e diferenciação progressiva dos conceitos. Assim, a aprendizagem deixa de ser meramente mecânica e passa a ser um processo de construção ativa e significativa.
    Além disso, abordar a FMC na escola contribui para romper a visão fragmentada e determinista da Física Clássica, favorecendo uma compreensão relacional e não mecanicista da realidade, perspectiva alinhada ao pensamento do popular divulgador da ciência: Carlo Rovelli. Para o autor, a Física atual descreve o mundo não como um conjunto de “pecinhas”, mas como uma rede de interações e relações entre eventos. Isso significa que um elétron, por exemplo, não é uma bolinha minúscula, mas uma manifestação de um campo quântico que só se torna perceptível quando interage com outro sistema. Essa concepção aproxima-se da própria lógica da aprendizagem significativa, em que o conhecimento se forma nas relações entre ideias, experiências e contextos. Assim como Rovelli rejeita a noção de partículas como objetos isolados, o ensino da FMC deve rejeitar a noção de conhecimento como um acúmulo de fórmulas e fatos desconectados.
    Ao explorar tópicos como a quantização da energia, a dualidade onda-partícula ou a relatividade do tempo, o professor possibilita que o estudante perceba a dimensão filosófica e epistemológica da ciência, entendendo que o conhecimento é histórico, provisório e construído coletivamente. Essa abordagem amplia a alfabetização científica e tecnológica, desenvolvendo competências interpretativas e argumentativas, condições essenciais para a formação de cidadãos críticos e participativos.
    Portanto, a inclusão da Física Moderna e Contemporânea no ensino básico não deve ser vista apenas como uma atualização de conteúdo, mas como uma estratégia de humanização do ensino de Física, ao favorecer o diálogo entre ciência, tecnologia, cultura e significado. Mesmo com tanta informação disponível na internet, ensinar FMC na escola, valorizando a interação entre colegas e a experimentação com objetos de aprendizagem, continua sendo fundamental.
    Além disso, a exploração de conceitos abstratos da FMC por meio de atividades manuais, experimentos e simuladores digitais pode ajudar os jovens, hoje bombardeados por estímulos constantes, a recuperar a capacidade de concentração e reflexão, ao transformar o aprendizado em uma experiência concreta e envolvente.
    Afinal, o desejo de todo professor de Ciências é que o estudante compreenda o universo como um conjunto de relações dinâmicas entre conceitos, fenômenos e pessoas, o que expressa, em última instância, o próprio espírito da ciência moderna e da aprendizagem significativa.

Referências

AUSUBEL, David P.AQUISIÇÃO E RETENÇÃO DE CONHECIMENTOS: uma perspectiva cognitiva. Tradução de Lígia Teopisto. Lisboa: Plátano (ou Interamericana em ed. brasileira), 2003. Disponível em: https://www.amazon.com.br/Aquisi%C3%A7%C3%A3o-Reten%C3%A7%C3%A3o-Conhecimentos-Perspectiva-Cognitiva/dp/9727073646. Acesso em: 01 nov. 2025. Amazon Brasil

ROVELLI, Carlo. Sete Breves Lições de Física. Tradução de [nome do tradutor]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

MOREIRA, Marco Antônio. UNIDADES DE ENSINO POTENCIALMENTE SIGNIFICATIVAS – UEPS. Porto Alegre: Instituto de Física – UFRGS, 2011. Disponível em (PDF): http://www.if.ufrgs.br/~moreira/UEPSport.pdf. Acesso em: 01 nov. 2025. Instituto de Física UFRGS

TESTA, M. J.; LOPES, [inicial(is)]; VIDMAR, UM OLHAR PARA A DISCIPLINA CURRICULAR CULTURA DIGITAL DO NOVO ENSINO MÉDIO: a relação das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação e o Ensino de Física. Revista Brasileira de Ensino de Física (RBEP), 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbef/a/GzKFWVjFrzPhHJf3L8xL8ZS/?format=html&lang=pt. Acesso em: 01 nov. 2025. SciELO

GOULART, Guilherme Salgueiro; LEONEL, André Ary.REVISÃO DA LITERATURA SOBRE O ENSINO DE FÍSICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA NO ENSINO MÉDIO SOB A ÓTICA DA TAS: problemáticas emergentes a partir de eventos brasileiros de ensino de física. Revista Dynamis, FURB, v.28, n.1, p.231–251, 2022. (Arquivo fornecido). Disponível em https://ojsrevista.furb.br/ojs/index.php/dynamis/article/view/103

KUHN, Thomas S.A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS. 1. ed. (The Structure of Scientific Revolutions). São Paulo: Perspectiva / tradução e edições diversas; 1962 (obra original). Disponível (cópia/pdf em repositórios): https://www.ige.unicamp.br/wp-content/uploads/sites/2/2018/08/KUHN-1962-A-estrutura-das-Revolu%C3%A7%C3%B5es-Cient%C3%ADficas.pdf. Acesso em: 01 nov. 2025. lri.fr

HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J.FUNDAMENTALS OF PHYSICS. 10. ed. [ou ed. disponível em português: Fundamentos de Física]. Rio de Janeiro / São Paulo: LTC / Wiley (edições e traduções variam). Exemplo de página do livro (edição inglesa): https://www.amazon.com.br/Fundamentals-Physics-David-Halliday/dp/111823071X. Acesso em: 01 nov. 2025. Amazon Brasil

TIPLER, Paul A.; MOSCA, Gene.FÍSICA PARA CIENTISTAS E ENGENHEIROS. (varias edições e traduções). Exemplo de referência/registro: https://www.amazon.com/Physics-Scientists-Engineers-Paul-Tipler/dp/142920124X. Acesso em: 01 nov. 2025. Amazon

SERWAY, Raymond A.; JEWETT, John W.PRINCÍPIOS DE FÍSICA (Principles of Physics). São Paulo: Cengage Learning Brasil (edições em português), várias edições. Exemplo de catálogo: https://minhabiblioteca.com.br/catalogo/livro/76767/princ-pios-de-f-sica-v-2/. Acesso em: 01 nov. 2025. Minha Biblioteca+1

TERRAZZAN, Eduardo Adolfo. A INSERÇÃO DA FÍSICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA NO ENSINO DE FÍSICA NA ESCOLA DE 2º GRAU. Caderno Catarinense de Ensino de Física, v.9, n.3, p.209-214, 1992. (Tese/Trabalho citado na literatura histórica). Disponível (registro/repositório): https://repositorio.usp.br/item/000742484. Acesso em: 01 nov. 2025. Repositório da Produção USP

MONTEIRO, M. A.; NARDI, R.; BASTOS FILHO, J. B.A SISTEMÁTICA INCOMPREENSÃO DA TEORIA QUÂNTICA E AS DIFICULDADES DOS PROFESSORES NA INTRODUÇÃO DA FÍSICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA NO ENSINO MÉDIO. Ciência & Educação, 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ciedu/a/bqMYJGjV6zGgMm7N6FpBWFQ/. Acesso em: 01 nov. 2025. SciELO+1

OSTERMANN, Fernanda; MOREIRA, Marco A.UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA SOBRE A ÁREA DE PESQUISA “FÍSICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA NO ENSINO MÉDIO”. Investigações em Ensino de Ciências, v.5, n.1, p.23–48, 2000. (citado em revisões históricas sobre FMC). Fonte secundária: https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/7392 (ou referências de repositórios). Acesso em: 01 nov. 2025.


Mídias

1. O que é FÍSICA MODERNA e CONTEMPORÂNEA?



2. Carlo Rovelli – Teoria quântica: o mundo que você vê não é o que você vive


3. David Ausubel e a Teoria da Aprendizagem Significativa



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Da Lua ao mito: por que a missão Artemis 2 nos obriga a repensar nossos limites

       Nesta semana, a tripulação da missão Artemis 2 foi lançada ao espaço rumo à Lua, justamente no dia 1º de abril de 2026 (o Dia da Mentira), o que não deixa de ser irônico, considerando que ainda hoje, mais de 57 anos após a missão Apollo 11 (1969), há conspiracionistas que “juram de pé junto” que a ida do ser humano à Lua foi uma farsa. Caso ainda persistam dúvidas por parte do leitor incauto, apresento a seguir, em um único parágrafo, uma síntese das principais evidências que refutam essa narrativa. Na volta da missão Apollo 11 em 1969 trouxeram 382 kg de rochas lunares analisados mundialmente, que possuem composições químicas impossíveis de replicar na Terra, e os retrorrefletores de laser instalados na superfície, que ainda hoje permitem medir a distância Terra-Lua com precisão milimétrica . Além disso, fotografias de alta resolução capturadas recentemente por sondas como a Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) mostram as bases dos módulos e as trilhas de peg...

TDIC no Ensino de Física 1 - A questão das desigualdades sociais

Fonte : criado a mão O texto a seguir tem o seguinte percurso: falar sobre a desigualdade social e a compreensão utilitarista da Física e da Tecnologia em alguns documentos oficiais educacionais;  A comunicação humana e a comprensão do termo tecnologia;  O digital, a comunicação e o estudo dos efeitos da mídia e da tecnologia na sociedade e na cultura humana (Marshall McLuhan e Pierre Leví). Reflexões sobre as tecnologia na sala de aula de Física (Papert, Michetel e David Nemer); Novos paradigmas das tecnologias para educação; Aprendizagem Ubíqua, Jogos, Aplicativos e as Redes Sociais; Práticas de Ensino e Projetos Integradores com TDIC no Ensino de Física     Reinventando um documento oficial (liberdades da escrita em um Blog 🌝)      Todo texto que se propoe a discutir sobre o uso das tecnologias na educação brasileira deveria primeiro fazer uma contextualização sobre a questão das desigualdades sociais para o acesso a essas tecnologias. De acordo co...

TDIC no Ensino de Física 2 - Como não instrumentalizar as TDIC

      Fonte: Feito à mão, do zero!        Não instrumentalizar as Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação (TDIC) no ensino de Física significa superar seu uso como meros recursos técnicos, acessórios ou ilustrativos, incorporados apenas para modernizar a aula ou tornar a exposição mais atrativa. Nessa perspectiva instrumental, a tecnologia funciona como um suporte neutro para a transmissão de conteúdos já estabilizados, sem alterar de modo significativo a lógica comunicativa do ensino, que permanece centrada na explicação do professor e na recepção passiva por parte dos estudantes. O resultado é que, mesmo mediadas por dispositivos digitais, as aulas continuam marcadas pela fragmentação entre teoria e prática, pela ênfase na manipulação formal de expressões matemáticas e pela dificuldade dos alunos em atribuir significado físico aos conceitos trabalhados.     No texto a seguir, buscava-se entende-se que as TDIC  como mei...